Anjos caem do
céu
O branco predomina nas vestes e calçados,
as paredes são claras e a luz
ilumina o quarto quase na penumbra.
Madrugada,
amanhecer e pelo dia inteiro o pinga pinga do soro é constante no intervalo
calculado.
Enfermeiros
deslizam pelo corredores e ao entrarem já sabemos que tudo ocorrerá novamente:
medição da pressão, batimentos cardíacos, controle da temperatura
e o copinho
com o comprimido pra glucose se manter dentro do desejado.
(LuLeal)
O
homem na cama aguarda ansiosamente a chegada da enfermeira da manhã. Tomara que
seja aquela bonita e paciente, que usa um colar discreto de pérolas iluminando
o uniforme branco, tão luminoso quanto o seu sorriso amigo e confiante; que
sabe procurar a veia com a cautela de um cirurgião; que troca os curativos com
a suavidade de um anjo; que abre as cortinas na altura certa para deixar ver o
jardim sem magoar os olhos com a claridade do amanhecer; que fala
mansamente como um gatinho ronronando ao seu ouvido "dormiu bem,
querido?", que ajuda a tomar o remedinho num copinho com água pura que
parece o néctar dos deuses; que ajeita as cobertas como mãe zelosa; que liga a
tv no canal que já sabe que mais lhe agrada, que
lhe diz com uma voz alegre e cantante que o dia está bom, que hoje vai ficar melhor ainda e que não fique de novo
com vergonha de trocar a fralda, que ela já está acostumada com velho cagado.
(ANGELA MADONO)